Jorge Bodanzky

e sua íntima relação com a região amazônica através do cinema 

Um dos homenageados desta edição do nosso festival é Jorge Bodanzky, um dos mais importantes cineastas do Brasil, com produções basilares sobre a região amazônica, que tanto nos inspira. Além de cineasta ele é roteirista e fotógrafo conhecido por realizar filmes que flertam entre a ficção e o documentário. Nascido em 1942, Bodanzky estudou na Universidade de Brasília, onde se interessou por cinema sob as influências de Nelson Pereira do Santos, Paulo Emilio Salles Gomes entre outros importantes nomes do cinema brasileiro, que foram responsáveis pela implementação do curso nesta época. Devido a aproximação com a arte e o fechamento da Universidade em circunstância do golpe militar, Jorge Bodanzky recebe uma bolsa e vai para a Alemanha estudar fotografia na Escola Superior da Forma, em Ulm, e lá se especializa em fotografia cinematográfica e também conhece seu futuro parceiro, Wolf Gauer, com quem faria uma série de documentários e longas-metragens.

Ao regressar ao Brasil, em 1968 Jorge Bodanzky trabalha como repórter fotográfico na Revista Realidade e inicia seus primeiros trabalhos como fotógrafo cinematográfico em documentários de curta duração e longas de ficção, como Hitler 3º Mundo (1968), Gamal, O Delírio do Sexo (1969) e O Profeta da Fome (1969). Bodanzky inicia sua carreira como diretor com o curta Caminhos de Valderez (1971) que dirige com Hermano Penna, porém retorna à Alemanha onde atua como repórter fotográfico e funda a StopFilms com o objetivo de produzir filmes específicos sobre o Brasil e a América Latina, de volta ao Brasil, ainda em 1973 vai para São Paulo e faz a fotografia do documentário O Fabuloso Fittipaldi (1973) de Roberto Farias.

A partir de então, faz pesquisas sobre a Amazônia e inicia uma relação muito próxima com esta região que dura até hoje, para sorte de todos nós que admiramos seu trabalho. Talvez seu filme mais conhecido, Iracema, uma transa Amazônica (1974), com codireção de Orlando Senna, Jorge Bodanzky constrói, efetivamente, uma relação íntima e profunda com a Amazônia ao retratar o cotidiano e as pessoas desta região de modo sensível e real. Essa belíssima obra de referência só pode ser oficialmente lançada no Brasil, por conta da forte censura durante a ditadura militar, sete anos depois de sua finalização, enquanto isso conquista muitas premiações e enorme prestígio internacional.

Com esta mesma equipe de produção e de apoio, desbrava, agora, o sertão nordestino e realiza o longa-metragem Gitirana (1976), que também recebe a mesma perseguição da censura, podendo ser exibido no Brasil anos depois. Na sequência, realiza o documentário de média-metragem Jari (1979), uma visão profunda acerca do controverso Projeto Jari, na Amazônia.

 parceria com seu amigo Wolf Gauer continua e realizam alguns documentários com apoio da TV alemã, são eles: Wolkswagen: operários na Alemanha e no Brasil (1974), Os Mucker (1978) e O Terceiro Milênio (1981).

 Seu emblemático filme Iracema – Uma Transa Amazônica é relançado em 1981 e recebe o Troféu Candango, principal prêmio do Festival de Brasília, de melhor filme. Agora em parceria de Helena , roda o longa documental Igreja dos Oprimidos (1986). Dos anos 1990 em diante, continua realizando documentários de curtas e médias metragens, tal como a fotografia do documentário À Margem do Concreto (2006) de Evaldo Mocarzel e A Propósito de Tristes Trópicos (1990), onde refaz a viagem que o antropólogo estruturalista Lévi-Strauss realizou no Mato Grosso nos anos 1935 e 1938 e que resultou em seu famoso livro Tristes Trópicos. Entre algumas de suas realizações mais recentes temos Pandemonium (2010) onde investiga o impacto das mudanças climáticas e os novos desafios na área energética baseado em dois grandes especialistas brasileiros o meteorologista Carlos Nobre o físico Rogério Cézar de Cerqueira Leite com previsões assustadoras para a raça humana no século 21, o belíssimo No Meio do Rio, Entre as Árvores (2010) e Utopia Distopia (2021) onde ele recorre às suas memórias afetivas do período em que cursou a Universidade de Brasília para nos mostrar todo um painel da juventude na década de 60, com seus sonhos e expectativas, suas crises e projetos interrompidos.

Ainda temos o instigante Transamazônica, uma estrada para o passado (HBO), uma série composta de seis episódios que perpassa pelos ambientes percorridos na época da realização do filme e apresenta as devastações ambientais causadas pelas obras da rodovia Transamazônica que proporcionou muitos problemas e pouco desenvolvimento à região.

“Jorge é um lorde austríaco, um cineasta-fotógrafo que dirige seus filmes incansavelmente através do olhar da câmera, quase sempre rejeitando o tripé para que seu ponto de vista arisco, terno e elegante não seja de modo algum engessado. Talvez a imagem mais marcante que guardo de Jorge Bodanzky em ação tenha acontecido durante uma filmagem que fizemos juntos em uma comunidade ribeirinha perto de Abaetetuba, no Pará. Estávamos ministrando em parceria uma oficina de cinema através do projeto Navegar Amazônia e, ao mesmo tempo, rodando o documentário homônimo. 

Estávamos todos fascinados por aquele grupo de pessoas entoando uma reza, uma ladainha, em latim, embora grande parte fosse analfabeta. Havia três fotógrafos registrando a manifestação religiosa e Jorge era um deles. A melhor imagem da ladainha reluzia no pequeno monitor de sua câmera. Não demorei muito a entender por quê. Sem a sofreguidão por planos muito rebuscados, Jorge simplesmente se ajoelhou para filmar a reza. Respirando com respeito, inteligência, elegância e delicadeza aquela atmosfera mística, ele estava em sintonia plena com tudo, imantado de sensibilidade e, principalmente, simplicidade. Uma aula de cinema para mim”. (Evaldo Mocarzel, cineasta e dramaturgo)

Jorge Bodanzky acumula uma enorme experiência empírica e afetiva com a região amazônica, com os rios, com as florestas e, sobretudo, com as pessoas. Sua vasta obra cinematográfica é obrigatória para quem quer tentar entender esta complexa, maltratada, cobiçada e tão bela região. Seus filmes e sua enorme e lindíssima produção fotográfica ajudam a denunciar e a expor todas estas belezas e mazelas, nos convidando a aceitar o desafio de resistir, sempre, e acreditar na potência do audiovisual como arma política.

 Imagens: acervo pessoal de Jorge Bodanzky

III FFEP