Patrícia Monte-Mor

e a extraordinária história da antropologia visual no Brasil

Patrícia Monte-Mór. Comecemos pelo formal. Consta no Curriculum Lattes que Patricia Monte-Mór Alves de Morais possui o mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1984), quando estudou os rituais das Folias de Reis no universo da cultura popular do Rio de Janeiro. É especialista em Antropologia Visual, sendo professora assistente no Departamento de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde coordena a Oficina de Ensino e Pesquisa em Ciências Sociais e o Núcleo de Antropologia e Imagem NAI. É co-editora da revista Cadernos de Antropologia e Imagem, periódico semestral, publicado a partir de 1995. Como produtora cultural é diretora da Interior Produções, sendo coordenadora e curadora do festival de cinema documentário Mostra Internacional do Filme Etnográfico, que realizou no Rio de Janeiro, anualmente desde 1993 a 2013, além de organizadora do Fórum de Cinema e Antropologia, com seminários, debates e workshops anuais, no mesmo evento. Como antropóloga, participou de diversas pesquisas na área da religiosidade popular desde os anos 80, quando desenvolveu seu interesse pelo diálogo da antropologia com a imagem – área de estudos a que vem se dedicando nos últimos anos.

Folia de reis no Rio de Janeiro

Folia de Reis, Rio de Janeiro

Coordena, através do NAI, na UERJ, diversos projetos de ensino, pesquisa e extensão no âmbito da Antropologia Visual. Organiza, desde 1999, por 7 edições, o Atelier Livre de Cinema e Antropologia, um curso de formação voltado para o uso da imagem nas ciências sociais. Fez parte da criação do Prêmio Pierre Verger de Vídeo Etnográfico, da ABA, estando em sua coordenação nos primeiros três anos, a partir de 1996.Tem atuado junto a diversos festivais dedicados ao filme documentário, com ênfase na produção etnográfica, nos últimos anos, no Brasil e no exterior. Área de pesquisa: Antropologia, com especialidade em Antropologia Visual: antropologia e imagem, história do filme etnográfico, metodologia de pesquisa audiovisual, uso da fotografia na pesquisa, história do Rio de Janeiro e a fotografia, história do documentário, documentário brasileiro.

Talvez não haja nenhum país onde as dinâmicas de pesquisa, ensino, extensão e produção em antropologia visual sejam tão intensas quanto no Brasil. São muitas dezenas os núcleos ou grupos de pesquisa, múltiplos os festivais de cinema etnográfico, documental, social, a formação é consistente em muitas universidades. A produção visual, audiovisual e sonora não se limita a trabalhos académicos, ou de cineastas conceituados. Emergem neste contexto cineastas indígenas, quilombolas, produções experimentais de jovens e até de crianças em que as questões etnográficas já se divisam e se tem em conta pelos agentes de formação. Os ateliers e oficinas multiplicam-se em cada evento. Foi sendo criada uma complexa rede de colaboração nacional e internacional de investigadores, produtores, academias, festivais, formação em rede, múltiplas participações em festivais, congressos. A Associação Brasileira de Antropologia criou em 1996 a partir de uma proposta do Grupo de Trabalho em Antropologia Visual o Comitê de Antropologia Visual que desempenha papel importante nas dinâmicas desta área de conhecimento e de práticas criativas na área da antropologia e da imagem – visual, audiovisual e sonora.

Esta dinâmica teve um começo fulgurante no Rio de Janeiro e teve em Patrícia Monte-Mór uma das principais iniciadoras deste processo. O seu interesse pelo filme etnográfico iniciou-se no ano de 1977 ao assistir à Mostra de Filme Etnográfico, curadoria de Yvonne Maggie e Peter Fry, na Cinemateca do MAM – Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em 1977-78 na London School of Economics frequentou, como Researche student, orientada por Peter Loizos, entre outras disciplinas Filmes etnográficos algo inovador para o ensino da antropologia no Brasil. De regresso ao Brasil mantém o interesse pelo cinema e mantém os contatos com a Cinemateca do MAM, dirigida por Cosme Alves Netto que a orienta e estimula em sua formação. É, porém, no Morro da Mangueira que desenvolve durante mais de uma década a pesquisa em Antropologia sobre Folia de Reis junto de migrantes internos que vindos de Minas Gerais para a construção do Maracanã no Rio de Janeiro trazem consigo estes rituais e os reconfiguram neste espaço urbano. É neste contexto de pesquisa, e com estes interlocutores que inicia a sua prática em antropologia visual, de uma forma espontânea, sem grandes referenciais teóricos que não existiam no Brasil. Com José Inácio Parente psicanalista, fotógrafo e cineasta faz trabalho de campo, registram em fotografia e vídeo e mostram às pessoas que vão indicando novos contatos e outras histórias que emergem do visionamento das imagens. Leva estes registos para o Museu Nacional, para seu orientador de mestrado Gilberto Velho que acha o material curioso e, como é seu hábito acolhe as propostas dos estudantes. A formação no Museu Nacional e na UFRJ é clássica, não há uma tradição de trabalho com imagens em antropologia. Como noutros países, é a pressão dos estudantes que leva a instituições a adotarem o uso das imagens na pesquisa (Piault).

Taquile

Nos anos de 1980 Patrícia entrou para o mestrado no PPGAS, Museu Nacional e envolveu-se também em múltiplos projetos do ISER – Instituto de Estudos da Religião, uma ONG fundada, em 1970, em Campinas (SP) por teólogos protestantes, como Rubem Alves e católicos com dificuldades em suas igrejas, realizando pesquisas, colaborando em publicações, envolvem-se em lutas sociais e políticas alargando suas redes de colaboração com antropólogos como Carlos Rodrigues Brandão e Rubem César Fernandes. No ISER, anos 1980, já sediado no Rio, deu continuidade á pesquisa sobre as Folias de Reis, integrando a fotografia e o vídeo na pesquisa. Nesta mesma década parte para a ilha de Taquile no lago Titicaca – berço mitológico da cultura Inca, com o cineasta José Inácio Parente e a antropóloga Ana Maria Daou com o objetivo de fazer um filme.

Antropologia e cinema debatiam-se a nível internacional com profundas mudanças, em 1984 o seminário de Santa Fé no México dava origem a Writing culture: poetics and politics of ethnography publicado por James Clifford e Georges Marcus. Em Taquile Patrícia, José Inácio e Ana Maria com a câmara e o gravador registraram, em um mês de trabalho, um pouco desse universo.” Vivemos com os taquilenhos em suas casas, caminhamos com eles naquelas alturas rochosas, de ponta a· ponta da ilha, em seus três quilômetros quadrados. Ouvimos histórias de velhos, com eles bebemos a çhichia e nos encantamos com seus tecidos delicados e cuidadosamente trabalhados” e debatiam a relação entre antropologia e cinema. Colaborou com José Inácio Parente e com outros cineastas na pesquisa antropológica da qual resultaram vários filmes como Igreja da Libertação, de Silvio Da-Rin (1986), o premiado Rio de Memórias (!987), O Lixo É Nosso (1991) esse último produção do ISER-Vídeo para o Conselho Mundial de Igrejas.

Rio de Memórias

Estas experiências e estes debates foram levados para a Reunião Brasileira de Antropologia de Curitiba em 1986, onde houve, pela primeira vez um Grupo de trabalho sobre Antropologia Visual. Foi coordenado pela antropóloga Claudia Menezes. Patrícia Monte-Mór apresentou o trabalho: Antropologia e Cinema: um documentário na ilha de Taquile, publicado em Guran, M.; Menezes, C; Monte-Mór, P. Caderno de Textos. Antropologia Visual. Rio de Janeiro, Museu do Indio, 1987. Nesse mesmo ano Cláudia Menezes com Patrícia Monte-Mór e Milton Guran organizaram no Museu do Índio em colaboração com o Museu de Arte Moderna a II Mostra Latino Americana de cinema dos povos indígenas.

É a partir dos anos de 1990 que o Filme Etnográfico e a Antropologia Visual ganham relêvo no Brasil, não apenas com sucessivas ondas de estudantes, pesquisadores, cineastas e fotógrafos brasileiros que fazem sua formação no exterior (Manchester, Paris, Nova Iorque) mas com uma multiplicidade de iniciativas que, a partir do Rio de Janeiro, se espalham até hoje por todo o Brasil: Cornelia Eckert desenvolve a partir do final de 1989 o O Núcleo de Antropologia Visual do PPGAS/UFRGS, Navisual, Sylvia Caiuby Novaes cria o Laboratório e Imagem e Som em Antropologia(1991) na USP, muitos outros grupos e núcleos de pesquisa se seguiram até à atualidade e se mantêm ativos, na formação, produção, organização de festivais, conferências, workshops.

Destacamos quatro grandes iniciativas coordenadas por Patrícia Monte-Mór: a criação em 1993 da Mostra Internacional do Filme Etnográfico, a edição dos Cadernos de antropologia e Imagem, a Internacionalização, Trabalhos com as escolas, trabalhos de formação.

Patrícia e José Inácio na homenagem ao Cosme Alves Netto

É a partir do filme Rio de Memórias (1987), e do grande sucesso do filme, de sua trajetória que começa a surgir a ideia de uma Mostra de documentário na sua ligação entre cinema e antropologia. Patrícia faz uma extensa pesquisa na Cinemateca do MAM com Cosme Alves Netto, reúne uma equipa, negocia com o Pós-graduação em Antropologia Social da UFRJ apoio à Mostra, estabelece ligação a festivais de cinema Etnográfico – Bilan du Film Ethnographique (atual Festival Jean Rouch) e outros festivais em Inglaterra e de outros países, consegue apoios do British Council e da Embaixada de França, organiza em torno da Mostra Internacional do Filme Etnográfico atividades de reflexão e de formação sobre Antropologia e Cinema, Documentário e Filme Etnográfico. Da primeira edição da Mostra, realizada em 1993 resultou o livro Cinema e antropologia: horizontes e caminhos da Antropologia Visual (1994) com as comunicações apresentadas nos Seminários que decorreram durante a Mostra.
Da Mostra e das atividades de formação saiam novos formadores que faziam trabalho com as escolas.

“A Mostra virou uma militância na minha vida”

A publicação Cinema e antropologia: horizontes e caminhos veio colmatar uma falta de publicações brasileiras sobre as imagens na pesquisa em antropologia nas suas mais variadas vertentes e conceções e abriu caminho para a revista Cadernos de Antropologia e Imagem, periódico semestral, publicado a partir de 1995 sendo Patrícia Monte-Mór co- Editora, pelo Núcleo de Antropologia e Imagem da UERJ.

Para a Mostra Internacional do Filme Etnográfico vieram personalidades importantes do cinema brasileiro: Eduardo Coutinho, João Moreira Sales, Vincent Carell, Vladimir Carvalho, realizadores indígenas: Divino Tserewahu, Patrícia Ferreira, Zezinho Yube e também figuras relevantes da antropologia visual, documentário e do filme etnográfico: Jean Rouch, Eliane de Latour, Peter Loizos, David MacDougall, Marc-Henri Piault, Etienne Samain ,Pierre Perrault, entre outros. O público enchia as salas, o ambiente era festivo e de uma grande mobilização dos interessados em mostrar e comentar os filmes, nos debates e seminários, na participação nos cursos e workshops, nas atividades com as escolas.

Marc-Henri Piault teve uma forte influência na antropologia visual no Brasil e nas dinâmicas desenvolvidas em torno da Mostra Internacional do filme Etnográfico: colaborou com a UERJ na formação em antropologia e cinema, foi parceiro de projetos, trouxe sua experiência africana, Jean Rouch, Eliane de Latour. Patrícia afirma que ter Piault na Mostra e nas atividades paralelas e na formação na UERJ era ter acesso ao mundo de Jean Rouch, figura incontornável do filme etnográfico e da Antropologia Visual. Piault veio pela primeira vez para o Brasil em 1994, apaixonou-se pelo Brasil, participou na XX RBA em 1996, participou em mesas redondas, em júris dos primeiros concursos de Filmes Etnográficos – Prémio Pierre Verger de Filmes Etnográficos. Veio posteriormente a viver no Rio de Janeiro após a sua aposentadoria na França e prestando uma colaboração sistemática com o projeto de Antropologia Visual que brotava um pouco por todo o Brasil.

Lidera uma casa cheia de interessados pelas Mostra e nas atividades paralelas

Com Pierre Perrault e Jean Rouch

Patrícia Monte-Mór manteve muitas das tradições relevantes da antropologia visual e do filme etnográfico, mas também criou diálogos com o cinema, o documentário, a fotografia e as artes. O seu centro de maior atenção foi e é a antropologia, a pesquisa em antropologia. Não se interessou muito por fazer filmes, em trabalhar parte técnica de realização, mas em realizar a pesquisa com os cineastas e organizar a produção cultural no âmbito da Antropologia e Cinema. Desenvolveu uma extensa rede de cooperação nacional e internacional. Colaborou com as estruturas que iam sendo criadas nos mais diversos locais do Brasil – facilitando o acesso ao acervo de filmes que foi criando em contatos com a diversas instituições – Museu de Arte Moderna, Universidade de Nova Iorque, Comité do Filme Etnográfico, Festivais de cinema. Nos tempos disfóricos que o mundo e particularmente o Brasil atravessam percorrer o itinerário de Patrícia Monte-Mór é semear e divulgar a esperança de tempos novos de renascimento dos tempos eufóricos da extraordinária história da antropologia visual no Brasil.

José da Silva Ribeiro
Porto, 5 de maio de 2021

Com Marc-Henri Piault e as equipes de produção

Cadernos de Antropologia e Imagem

Em Nova Deli. Participação em Festivais Internacionais

Com Marc-Henri Piault

Na Sardenha. Também em Eventos Internacionais

III FFEP