Jean Rouch
1917 – 2004

Para mim, cineasta e etnógrafo, praticamente não existe nenhuma fronteira entre o filme documental e o filme de ficção. O cinema, a arte do duplo, é já a passagem do mundo real para o mundo imaginário e a etnografia, a ciência dos sistemas de pensamento dos outros, é a contínua passagem de um universo conceptual a um outro, uma ginástica acrobática em que perder o pé é o menos dos riscos. (Jean Rouch por Enrico Fulchignon)

Jean Rouch, referência paradigmática do cinema e da antropologia

Jean Rouch, filho de Jules Rouch, meteorologista, explorador e diretor do Museu Oceanográfico de Mónaco, participante na expedições polares francesas à Antártida entre 1908 e 1910 e de Luce Gain, que conhecera ao desembarcar no navio da exposição – Pourquoi pas?, nasceu em 31 de maio de 1917. Formou-se na École des Ponts et Chaussée de Paris em Engenharia Civil. Em contato com África tornou-se antropólogo e cineasta do Niger e em 1952 defendeu tese doutorado (doctorat d’État) em Etnologia – Religion et magie Songhay et Histoire des Songhay, orientado por Marcel Griaule. Manteve durante a sua vida estas duas paixões: a de engenheiro e a de cineasta etnógrafo. Como engenheiro cultivou a admiração pela obra de Eiffel – Torre Eiffel e Paris (Le beau navire, 1990) e pontes do Rio Douro no Porto – Portugal (Une poignée de mains amies, 1996). Em França, destruiu pontes para evitar o avanço das tropas Nazis, em África dirigiu a construção de estradas e pontes, mas sobretudo criou muitas outras pontes: entre brancos e negros (La Pyramide Humaine, 1961), entre ele e o outro (Moi un Noire, 1990 e Je suis un africain blanc, 2007 de Bernd Mosblech com Jocelyne Rouch), a passagem do colonialismo às independências africanas (Niger, Jeune République (Niger) com Claude Jutra, 1960, Makwayela (Mozambique) com Jacques d’Arthuys, 1977), entre a etnografia e o cinema / entre antropologia e sociologia (Chronique d’un été, 1960), transferência de tecnologias entre tecnologias europeia – Holanda e africanas – Niger (Madame l’eau, 1996), entre etnografia e Surrealismo (Les Maîtres Fous, 1957, La Punition, 1962, Gare du Nord, 1965,), entre documentário e ficção, entre o real e o imaginado, seu desempenho como engenheiro, pesquisador, etnógrafo, cineasta e o fazer de conta (Mosso mosso – Jean Rouch comme si, 1998 de Jean-André Fieschi com Jean Rouch). Muitas outras pontes, muitos outros trânsitos podemos identificar na obra cinematográfica e antropológica de Jean Rouch.

 Deste figura incontornável e referência paradigmática no cinema e na antropologia não podemos de modo algum esquecer a série SIGUI que realiza com Germaine Dieterlen e acompanha os rituais entre 1966 e 1973: Sigui 66 année zéro 1966; Sigui : L’enclume de Yougo, 1967; Sigui : Les danseurs de Tyogou, 1968; Sigui : La Caverne De Bongo, 1969; Sigui: Les clameurs d’Amani, 1970; Sigui : La dune D’Idyeli, 1971; Sigui : Les pagnes de Yame, 1972; Sigui : L’auvent de la Circoncision, 1973. Obra ímpar e irrepetíveis pois os rituais SIGUI só se repetem depois de 60 anos e como afirma Gay Gauthier em Géographie sentimentale du documentaire “É pouco provável que o CNRS, que não vê assim tão longe, esteja preparando desde já esse programa de pesquisa. É de se temer, no entanto, que em 2027, no ritmo das transformações que abalam o continente africano, a cerimônia não seja mais que um espelho, um simulacro, uma representação para os turistas. Era uma vez o Povo Dogon”.

Jean Rouch gostava de citar Henri Langlois (1914-1977) – um dos fundadores da Cinemateca francesa –, para quem “cineastas nunca morrem, pois toda vez que seus filmes são projetados, eles revivem” talvez por isso mesmo seu último filme que realiza, com Bernard Surugue, tenha este título Le rêve plus fort que la mort (2002).

Texto de
José da Silva Ribeiro

III FFEP